Os meus favoritos

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Engraçado como a gente tem favoritos que nem cabem numa lista.
Eu, por exemplo, amo o barulho da chuva. Amo ouvir meu filho me chamando de “mãe”. E existe um som que talvez ninguém entenda a importância: o grito da minha sobrinha emprestada quando entro em algum lugar onde ela está.
— TIAAAAAAA!
Ela grita como se tivesse acabado de chegar alguém importantíssimo.
E, naquele instante, eu me sinto importante.
Especial para ela.
Como eu amo aquela menina. Amor de tia mesmo, desses que a gente não precisa explicar de onde vieram. Simplesmente chegaram, fizeram morada e pronto.
Também amo o som das ondas, gargalhadas de bebês, o barulho da cerveja caindo no copo e, por mais contraditório que pareça, amo o barulho do silêncio.
Gosto de abraços sinceros.
E sim, eu sei quando são sinceros.
Pode parecer maluquice, mas sinto a troca de energia. Aliás, escolho algumas coisas — e algumas pessoas — pela energia. Nem sempre sei explicar. Só sinto.
Gosto de repetir filmes. Já fui muito mais apaixonada pelos românticos. Daqueles em que você praticamente entra na história, sofre junto, ama junto e, durante duas horas, acredita piamente que aquele amor todo poderia existir fora da televisão.
Já entrei em muitos filmes.
Talvez até em algumas histórias da vida real.
Também adoro cantar. Não significa que eu cante bem, são coisas completamente diferentes. Mas canto mesmo assim. E provavelmente com uma confiança muito maior do que o meu talento permite.
Amo dezembro.
Dezembro tem outro som que eu adoro: cigarras.
Para mim, elas anunciam o verão, o Natal, o fim de um ciclo, férias, calor, expectativa… tanta coisa. Tem sons que carregam memórias inteiras dentro deles.
Já amei pessoas que hoje não amo mais.
E tudo bem admitir isso.
O sentimento também cumpre ciclos.
Agora, outro som favorito: miado de gato.
E vocês podem rir, mas os gatos conversam comigo.
Sério.
Eu falo, eles respondem.
Hahahaha.
Também gosto daquele barulho dos barquinhos que eu pegava para atravessar e ir à Ilha Grande. Como era gostoso… Só de lembrar parece que consigo sentir o vento e ouvir o motor outra vez.
Nunca gostei muito de comemorar meu próprio aniversário. Morro de vergonha de surpresa, não sei onde colocar a cara, o braço, o corpo inteiro.
Mas adoro comemorar o aniversário das pessoas que amo.
E são poucas.
Admito também que talvez eu ame mais do que sou amada.
Não é vitimismo.
É intensidade.
Hahahaha.
Eu acredito que felicidade não seja um estado permanente. Para mim, felicidade é momento.
Às vezes, um momento pequenininho.
Talvez por isso eu seja tão boba e exagerada quando estou feliz. Se eu sei que aquilo pode passar, então quero sentir tudo enquanto está acontecendo.
Gosto de tomar sorvete no frio.
E olha que nem sou muito do doce.
Sou das coxinhas.
Penso demais no que os outros vão pensar de mim. Infelizmente. Vivo assim há muito tempo. Mas também sei que tudo é temporário.
Inclusive nós.
Amo borboletas.
E tenho uma vontade tão simples que chega a ser engraçado nunca ter realizado: comprar um daqueles bebedouros para beija-flor.
É barato.
É simples.
E nunca comprei.
Vai entender.
Aliás, acho que estou falando demais de bichinhos, né?
Mas como não achar incrível um beija-flor? A velocidade das asas, aquele bichinho minúsculo parado no ar… Parece uma pequena afronta às leis da lógica.
Também amo cavalos.
Sempre amei.
E ainda vou montar em um.
Gosto de plantar sementes e acompanhar quando começam a germinar. Existe alguma coisa muito bonita em colocar algo minúsculo na terra e, dias depois, descobrir que havia uma vida inteira escondida ali.
Tenho pavor de aranha.
Ou tinha.
Porque uma vez apareceu uma pequenininha e eu fiquei com pena de matar.
Então conversei com ela.
Sim.
Com a aranha.
Falei:
“Ou você sobe no meu chinelo para eu colocar você na janela e ir embora, ou eu vou ter que matar você.”
Gente…
A aranha subiu no chinelo.
Eu levei até a janela.
E ela foi embora.
Depois disso comecei a pensar que talvez eu não tenha tanto medo assim.
Ou talvez eu só tenha encontrado uma aranha muito educada.
Quando eu era criança, fazia feira para formigas.
Alguém mais fazia isso?
Provavelmente não.
Hahahaha.
Eu separava as coisinhas e montava aquela feira como se as formigas fossem chegar com sacolinha para escolher tomate, arroz e promoção do dia.
Era uma loucura.
Mas eu adorava.
Também odiava pentear o cabelo. Era extremamente cheio e aquela obrigação parecia um castigo diário.
Sempre gostei de rio e de mar, embora tenha um respeito enorme pelo mar — e em rio eu não entro.
Sempre fui meio “a louquinha”.
Talvez tenha puxado isso da minha avó, que me criou.
Tenho raízes indígenas e, quando criança, minha avó me chamava de cabocla: pele morena, cabelo preto e uma resistência danada. Segundo ela, eu simplesmente não ficava doente.
E no meio de tantas lembranças percebo uma coisa:
talvez meus favoritos nunca tenham sido apenas sons, lugares, animais ou coisas.
São sensações.
É me sentir amada quando alguém grita “tia” ao me ver.
É ouvir “mãe”.
É uma gargalhada de bebê.
É uma semente rompendo a terra.
É uma aranha aceitando educadamente uma carona até a janela.
É o barulho da chuva, das ondas, das cigarras, dos barcos, dos gatos e até do silêncio.
Talvez felicidade seja justamente isso.
Esses pequenos instantes que parecem bobos para quem olha de fora, mas que, por alguns segundos, fazem a gente pensar:
caramba… como é bom estar viva.

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