Autor: Tatiana Longuinho

  • “A morte é um dia que vale a pena viver”: um livro sobre a vida, não sobre a morte

    “A morte é um dia que vale a pena viver”: um livro sobre a vida, não sobre a morte

    Por Tatiana Longuinho

    Hoje, enquanto acompanhava minha mãe no hospital, minha médica me indicou um livro.

    O título, confesso, não é daqueles que passam despercebidos:

    “A morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Claudia Quintana Arantes.

    Talvez, em outro momento da minha vida, eu olhasse para esse título com certo desconforto. Afinal, falar sobre a morte nunca foi exatamente um assunto que escolhemos para uma conversa tranquila de fim de tarde.

    Mas existem momentos em que algumas palavras chegam até nós de maneira diferente.

    E hoje elas chegaram.

    Ana Claudia Quintana Arantes é médica geriatra e uma das principais referências brasileiras em cuidados paliativos. A obra nasceu a partir de uma palestra realizada pela autora em 2012 e propõe justamente uma mudança de perspectiva: em vez de olhar para a morte apenas como algo assustador, ela nos convida a observar como estamos usando o tempo que existe antes dela.

    E talvez aí esteja a grande beleza do livro.

    Um livro chamado “morte” que fala, sobretudo, de vida

    À primeira vista, podemos imaginar uma leitura triste ou pesada.

    Mas a proposta é outra.

    A morte aparece como uma espécie de espelho. Quando lembramos que nossa existência não é infinita, algumas perguntas que costumamos adiar começam a ganhar importância.

    Estamos vivendo da maneira que gostaríamos?

    Estamos dizendo às pessoas que amamos que elas são importantes?

    Quanto tempo gastamos com coisas que, no fundo, não significam absolutamente nada?

    Quantos abraços adiamos?

    Quantas conversas ficam para depois?

    Segundo a proposta apresentada pela autora, talvez o grande medo não devesse ser simplesmente morrer, mas chegar ao fim da vida percebendo que não vivemos de acordo com aquilo que realmente importava para nós.

    E isso muda completamente a conversa.

    Também precisamos aprender a perder

    Existe outro ponto muito interessante na obra.

    Passamos boa parte da vida sendo ensinados a ganhar.

    Ganhar dinheiro.

    Ganhar reconhecimento.

    Conquistar uma profissão.

    Conquistar uma casa.

    Construir relações.

    Realizar sonhos.

    Somos preparados para conquistar.

    Mas quase ninguém nos ensina a perder.

    E, inevitavelmente, ao longo da vida perdemos alguma coisa: pessoas, planos, juventude, certezas, relacionamentos, possibilidades e até versões de nós mesmos que um dia existiram.

    A reflexão proposta no livro é que aprender a lidar com as perdas também faz parte de uma vida inteira. A própria apresentação oficial da obra resume essa ideia ao relacionar a capacidade de perder à possibilidade de ter vivido plenamente aquilo que um dia tivemos.

    Achei isso particularmente forte.

    Porque talvez aceitar que algo é precioso também signifique aceitar que não podemos possuí-lo para sempre.

    Cuidados paliativos não significam desistência

    O livro também aproxima o leitor de um tema ainda cercado de muito desconhecimento: os cuidados paliativos.

    Existe a impressão de que eles começam quando “não há mais nada a fazer”.

    Mas a filosofia dos cuidados paliativos é justamente lembrar que sempre existe alguém para cuidar, mesmo quando determinadas possibilidades de cura deixam de existir.

    É possível aliviar a dor.

    Diminuir o sofrimento.

    Ouvir.

    Respeitar escolhas.

    Proporcionar conforto.

    Preservar dignidade.

    Permitir que uma pessoa continue sendo muito mais do que um diagnóstico ou um número de prontuário.

    A trajetória profissional de Ana Claudia é dedicada justamente a essa maneira mais humana de acompanhar pessoas que convivem com doenças graves e suas famílias.

    E talvez nós precisemos falar mais sobre isso.

    O presente fica diferente quando percebemos que ele não é infinito

    Existe uma crueldade no medo: às vezes ele nos faz sofrer antecipadamente por coisas que ainda nem aconteceram.

    Começamos a morar no amanhã.

    Imaginamos cenários.

    Criamos diálogos.

    Tentamos descobrir respostas para perguntas que talvez ninguém consiga responder.

    Enquanto isso, o hoje continua acontecendo.

    Talvez uma das reflexões mais importantes despertadas por esse livro seja exatamente esta:

    a pessoa que amamos está aqui agora.

    Existe um café que ainda pode ser tomado.

    Uma história que ainda pode ser contada.

    Uma reclamação que daqui a alguns anos talvez até faça falta.

    Uma mão que pode ser segurada.

    Uma fotografia que ainda pode ser feita.

    Um “eu te amo” que ainda pode ser dito.

    Não se trata de fingir que a doença, a perda ou o medo não existem.

    Trata-se de não permitir que o medo do amanhã roube completamente aquilo que ainda temos hoje.

    E então o título começa a fazer sentido

    “A morte é um dia que vale a pena viver” pode parecer uma frase contraditória.

    Depois entendemos que a provocação está justamente aí.

    Até o último dia, ainda existe uma pessoa.

    Ainda existem desejos.

    Ainda existe dignidade.

    Ainda existe afeto.

    Ainda existe vida.

    A morte não precisa transformar todos os dias anteriores a ela em uma interminável sala de espera.

    A obra convida o leitor a pensar sobre finitude justamente para valorizar aquilo que acontece antes dela. A editora descreve o livro como uma reflexão sobre aproveitar o tempo e permitir que as pessoas possam viver bem até sua partida.

    Vale a pena ler?

    Talvez não seja o tipo de livro que escolhemos apenas para passar o tempo.

    É uma leitura que chega fazendo perguntas.

    Algumas provavelmente desconfortáveis.

    Outras necessárias.

    E talvez seja justamente por isso que tantas pessoas se identifiquem com ele.

    Porque, apesar do título, este não parece ser um livro sobre como morrer.

    É um livro sobre como não esquecer de viver.

    Hoje ele chegou até mim dentro de um hospital.

    E talvez livros também sejam assim.

    Existem aqueles que escolhemos.

    E existem aqueles que parecem encontrar a gente exatamente no momento em que precisávamos deles.

    Eu já comprei o meu.

    Agora vou descobrir o que existe depois da primeira página.

  • Uma taça, uma pausa e nenhum motivo especial

    Uma taça, uma pausa e nenhum motivo especial

    Durante muito tempo, a gente aprende que certas coisas precisam de ocasião.

    O vestido bonito espera um jantar.

    A louça melhor espera visitas.

    O perfume mais caro espera uma festa.

    E o vinho também.

    Como se abrir uma garrafa pedisse uma justificativa. Como se fosse preciso estar comemorando alguma coisa muito grande para merecer esse pequeno prazer.

    Mas talvez a vida, do jeito simples como ela é, já seja motivo suficiente.

    E talvez seja por isso que eu goste tanto dessa ideia de parar um pouco, servir uma taça e deixar o tempo desacelerar.

    Entre tantos vinhos que já provei, existe um que me traz uma lembrança especial: o Tarapacá Gran Reserva.

    Eu conheci esse vinho quando morei em Santiago, no Chile, e ele acabou se tornando um dos meus preferidos. Era aquele tipo de vinho que, para mim, tinha presença, elegância e, ao mesmo tempo, aconchego. Um vinho que parecia combinar com noites mais calmas, comida boa e aquela sensação gostosa de pausa.

    Na época, eu pagava em torno de 10 mil pesos chilenos por ele. Hoje, aqui no Brasil, costumo encontrá-lo por em torno de 100 reais. E, pelo tipo de vinho que é, considero que ele tem um excelente custo-benefício. É um Gran Reserva elegante, encorpado e muito agradável, que entrega uma experiência que, para mim, vale bastante pelo preço. Continua sendo um daqueles vinhos que eu compro sabendo que dificilmente vou me arrepender.

    A versão Gran Reserva Cabernet Sauvignon tem personalidade. É um vinho mais encorpado, com presença na boca, e costuma trazer aromas e sabores de frutas escuras, como ameixa e cassis, além de notas de especiarias e madeira que deixam o conjunto ainda mais interessante.

    É um vinho marcante, mas sem perder a harmonia.

    Eu gosto dele justamente porque não passa despercebido. Ele entra na taça dizendo a que veio.

    E talvez por isso combine tão bem com momentos em que a gente quer sentir mais do que apenas beber.

    Vai muito bem com carnes vermelhas, massas com molhos mais intensos, risotos, queijos curados e uma boa tábua de frios. Mas, sendo bem sincera, para mim ele também combina com outra coisa: silêncio, pausa e um pouco de tempo para si.

    Porque nem sempre a gente precisa esperar uma data especial.

    Às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma taça bonita, um vinho de que gosta e alguns minutos em paz.

    Pode ser uma quarta-feira.

    Pode ser depois de um dia cansativo.

    Pode ser enquanto a comida termina no forno.

    Pode ser sentada perto de uma janela, ouvindo uma música ou simplesmente aproveitando o silêncio de casa.

    Sem comemoração.

    Sem convidados.

    Sem nenhuma grande notícia.

    Só você.

    A gente passa tanto tempo esperando pelos grandes acontecimentos que, às vezes, esquece que a maior parte da vida acontece justamente nos dias comuns.

    E talvez sejam eles que mais mereçam cuidado.

    Nem toda taça precisa brindar a um aniversário, a um jantar romântico ou a uma grande conquista.

    Algumas brindam apenas ao fato de que seguimos aqui.

    E isso, por si só, já é muito.

    Porque, no fim, talvez o verdadeiro luxo não esteja em uma garrafa cara ou em uma mesa perfeita.

    Talvez esteja simplesmente em perceber que um momento comum também pode ser especial.

    E você? Também tem um vinho que te lembra uma fase especial da vida?

  • O dia que eu voltei pra mim

    O dia que eu voltei pra mim

    Verdades sentidas sobre amor, perda e recomeço

    Existem histórias que a gente vive.

    E existem histórias que a gente precisa entender.

    Por muito tempo, eu achei que amar fosse insistir.

    Ficar.

    Tentar mais uma vez.

    Perdoar mais uma vez.

    Esperar mais um pouco.

    Achei que amor também fosse suportar os silêncios, compreender as ausências e encontrar justificativas para aquilo que, no fundo, já não precisava de explicação.

    A gente faz isso quando ama.

    Ou quando acredita que ama.

    Vai diminuindo algumas dores para conseguir permanecer.

    Vai ignorando sinais.

    Vai se acostumando com coisas que, no começo, jurou que jamais aceitaria.

    E, quando percebe, já não sabe exatamente em que momento começou a se perder.

    Porque ninguém se perde de si de uma vez.

    É aos poucos.

    É quando você deixa de dizer o que sente para não começar uma discussão.

    Quando passa a aceitar menos do que precisa porque tem medo de perder o pouco que ainda existe.

    Quando começa a medir palavras, controlar reações, engolir perguntas.

    Quando a paz da relação depende sempre do seu silêncio.

    E talvez essa seja uma das formas mais dolorosas de solidão:

    estar ao lado de alguém e, ainda assim, sentir-se completamente sozinha.

    Durante muito tempo eu pensei que o problema fosse não conseguir fazer dar certo.

    Depois entendi que algumas coisas não precisam dar certo.

    Precisam apenas terminar de nos ensinar aquilo que vieram ensinar.

    E essa descoberta não aconteceu de repente.

    Não teve uma manhã em que acordei corajosa, abri a janela e finalmente soube todas as respostas.

    Foi diferente.

    Primeiro veio o cansaço.

    Depois, a dúvida.

    Depois, aquela sensação estranha de olhar para mim mesma e não reconhecer completamente a mulher que estava ali.

    Até que alguma coisa mudou.

    Talvez não tenha mudado fora.

    Talvez tenha mudado dentro.

    Eu comecei a perceber.

    Comecei a enxergar aquilo que durante tanto tempo tentei não ver.

    E, pela primeira vez, em vez de perguntar:

    “Será que ele ainda me ama?”

    eu comecei a perguntar:

    “Por que eu estou me amando tão pouco?”

    Essa pergunta mudou muita coisa.

    Porque existe um momento em que continuar tentando salvar uma relação começa a significar abandonar a si mesma.

    E eu já tinha me abandonado demais.

    Foi então que comecei a voltar.

    Não fui embora correndo.

    Não virei outra pessoa de um dia para o outro.

    Não deixei de sentir.

    Não deixei de amar.

    Eu apenas comecei, ainda com medo, a me escolher também.

    E talvez voltar para si seja exatamente isso.

    Não é deixar de amar alguém.

    É parar de desaparecer para que esse amor continue existindo.

    É lembrar da própria voz.

    Dos próprios limites.

    Dos sonhos que ficaram esperando.

    Da mulher que existia antes de começar a pedir tão pouco para não perder alguém.

    Hoje eu entendo que recomeçar nem sempre significa começar uma nova vida.

    Às vezes é simplesmente recuperar a vida que já era nossa.

    Voltar para aquilo que gostávamos.

    Para as pessoas que deixamos de procurar.

    Para os lugares onde éramos felizes.

    Para a nossa própria companhia.

    E, principalmente, para aquela parte de nós que ficou esperando pacientemente que um dia voltássemos para buscá-la.

    Se em algum momento você já sentiu que estava sozinha dentro de uma relação…

    essa crônica talvez também seja sua.

    Porque, às vezes, o primeiro passo não é ir embora.

    É voltar pra si.

  • Uma oração ao tempo

    Uma oração ao tempo

    Eu nunca soube conversar com o tempo.

    Passei boa parte da vida reclamando que ele demorava. Queria que as coisas acontecessem logo, que os dias difíceis terminassem, que os sonhos chegassem, que as respostas aparecessem.

    Agora eu queria justamente o contrário.

    Queria pedir ao tempo que andasse devagar.

    Que não tivesse tanta pressa em mudar os rostos que amo, em transformar os corpos, em levar embora aquilo que um dia pensei que estaria aqui para sempre.

    Talvez a gente só entenda o tempo quando percebe que não manda nele.

    Não adianta implorar para ontem voltar. Não adianta segurar o amanhã do lado de fora. E, por mais que doa admitir, também não existe força capaz de fazer o presente permanecer exatamente onde está.

    É isso que mais me assusta.

    Minha mãe envelheceu.

    Eu também.

    E em algum momento, sem que eu percebesse, aquela mulher que parecia invencível passou a precisar de cuidado. A mulher que tantas vezes foi meu abrigo agora me faz desejar ter poderes que não tenho.

    Eu queria protegê-la do tempo.

    Da doença.

    Da dor.

    De tudo aquilo que eu não consigo controlar.

    Mas não posso.

    E talvez amadurecer também seja descobrir essa parte cruel da vida: amar alguém profundamente não nos dá o poder de impedir que alguma coisa aconteça com essa pessoa.

    Então eu faço o que consigo.

    Fico perto.

    Guardo fotografias.

    Escuto a voz com mais atenção.

    Reparo nas mãos.

    Nos olhos.

    Nos pequenos gestos que durante tantos anos pareceram tão comuns que eu jamais imaginei que um dia teria medo de perdê-los.

    Talvez seja isso que o tempo faça conosco.

    Primeiro ele nos ensina a querer o futuro.

    Depois nos ensina a sentir saudade do passado.

    E, quando finalmente entendemos alguma coisa, percebemos que tudo o que realmente temos é este instante.

    Hoje.

    Agora.

    Por isso minha oração mudou.

    Eu não peço mais ao tempo que pare.

    Sei que ele não vai parar.

    Também não peço que volte, porque existem caminhos que só podem ser percorridos uma vez.

    Peço apenas que seja gentil.

    Que passe devagar quando eu estiver abraçando minha mãe.

    Que me deixe perceber as coisas pequenas.

    Que não permita que a pressa me roube aquilo que ainda está aqui.

    E, quando eu não puder mudar o que estiver por vir, que ele me ensine a aceitar sem transformar aceitação em desistência.

    Porque aceitar não significa amar menos.

    Às vezes significa justamente o contrário.

    Significa amar tanto que a gente aprende a permanecer, mesmo quando não existe nada para consertar.

    Talvez essa seja a minha oração ao tempo:

    não me poupe de viver.

    Mas, por favor,

    me ensine a estar presente enquanto ainda é tempo.

  • Nem tudo precisa fazer sentido

    Nem tudo precisa fazer sentido

    Passei muito tempo achando que precisava entender tudo o que eu sentia.

    Se eu amava, então tinha que amar o tempo inteiro.

    Se estava feliz, não podia sentir tristeza.

    Se sentia saudade, deveria querer de volta.

    Se estava com raiva, talvez já não amasse mais.

    Como se sentimento obedecesse a alguma lógica.

    Mas não obedece.

    Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar: dentro da gente podem existir duas verdades completamente contrárias — e nenhuma delas precisa ser mentira.

    Eu posso amar alguém e querer distância.

    Posso sentir saudade e não querer voltar.

    Posso perdoar e ainda me lembrar da dor.

    Posso estar rodeada de pessoas e sentir uma solidão imensa.

    Posso rir num dia em que alguma coisa dentro de mim está doendo.

    E talvez eu nunca consiga explicar direito.

    Tenho uma mania quase desesperada de procurar palavras para aquilo que sinto. Acho que é por isso que escrevo tanto. Falar exige que eu saiba exatamente o que quero dizer. Escrever me permite descobrir enquanto digo.

    Às vezes começo uma frase acreditando que estou com raiva e termino percebendo que era tristeza.

    Em outras, penso que é saudade e descubro que era apenas lembrança.

    E há dias em que escrevo páginas inteiras e continuo sem saber.

    Talvez eu tenha passado tempo demais tentando transformar sentimentos em coisas organizadas, com nome, motivo e conclusão.

    Mas gente não é assim.

    Somos feitos também daquilo que não combina.

    Do amor misturado com raiva.

    Da coragem acompanhada do medo.

    Da vontade de ficar e, ao mesmo tempo, fugir.

    Das certezas que duram cinco minutos e das dúvidas que atravessam anos.

    E comecei a pensar que talvez eu não precise compreender tudo.

    Talvez algumas coisas dentro de mim possam simplesmente existir.

    Sem explicação.

    Sem legenda.

    Sem a obrigação de fazer sentido para os outros.

    Nem para mim.

    No fundo, é justamente por isso que continuo escrevendo.

    Não porque tenha encontrado as respostas.

    Mas porque, entre uma palavra e outra, às vezes encontro uma pequena parte de mim.

    E quando não encontro, tudo bem também.

    Amanhã eu escrevo de novo.

  • Entre o abraço e a distância

    Entre o abraço e a distância

    Eu amo minha cunhada.

    Amo de verdade.

    Tenho admiração por ela, carinho, vontade de abraçar, beijar, colocar no colo e cuidar. Tem dias em que olho para ela e penso no quanto ela é importante para mim, no quanto gosto de tê-la por perto.

    Mas também existem dias em que ela me irrita profundamente.

    E aí eu digo:

    — Eu te amo, mas às vezes eu te odeio.

    Pronto.

    Foi o suficiente para todo mundo querer entender como alguém pode amar e odiar a mesma pessoa.

    E o problema é que eu mesma não sabia explicar.

    Talvez porque não seja exatamente ódio.

    Não é aquele ódio que deseja o mal. Não é desprezo. Não é falta de amor.

    É outro tipo de “ódio”.

    É o “me deixa quieta porque hoje eu não estou te suportando”.

    É o “você precisa mesmo querer tudo do seu jeito?”.

    É aquela irritação que só quem tem intimidade suficiente consegue provocar na gente.

    Porque ela é mimada.

    Pronto, falei.

    Às vezes quer que as coisas sejam do jeito dela, na hora dela, da maneira dela. E isso me tira do sério de uma forma que poucas pessoas conseguem.

    Tem hora que eu quero ficar perto.

    Tem hora que eu quero ficar longe.

    Tem hora que dá vontade de agarrar, encher de beijo e dizer o quanto eu a amo.

    E tem hora que penso que alguns quilômetros de distância fariam muito bem para nossa relação.

    Talvez isso tenha um pouco de amor de irmã.

    Aquele amor sem cerimônia.

    Irmão não fica o tempo inteiro dizendo coisas bonitas um para o outro. Irmão implica. Briga. Se irrita. Manda calar a boca. Quer distância. E, cinco minutos depois, se alguém mexer com o outro, é capaz de comprar uma guerra.

    Talvez amar alguém de verdade também seja isso.

    Não transformar a pessoa em alguém perfeito só porque a amamos.

    É conhecer os defeitos.

    É enxergar a parte chata.

    A parte birrenta.

    A parte que nos tira do sério.

    E ainda assim olhar para aquela pessoa e pensar:

    “Que criatura insuportável.”

    E logo depois:

    “Mas é a minha criatura insuportável.”

    Eu não preciso gostar de tudo nela para amá-la.

    Não preciso concordar com tudo.

    Não preciso querer estar perto o tempo inteiro.

    Às vezes o amor também precisa de distância, silêncio e alguns minutos respirando longe um do outro.

    E talvez eu tenha finalmente entendido o que quero dizer quando falo que amo e odeio minha cunhada.

    Eu não a odeio.

    Às vezes eu só odeio o jeito que ela consegue me irritar.

    E isso não diminui em nada o tamanho do amor que sinto por ela.

    Talvez até prove que é amor mesmo.

    Porque depois da raiva, da implicância e da vontade de mandar aquela criatura para bem longe…

    eu ainda quero que ela volte.

  • Eu ainda prefiro ser boba

    Eu ainda prefiro ser boba

    Eu ainda prefiro ser boba

    Tem gente que acha que ser esperto é não confiar em ninguém.

    É desconfiar de tudo, prever cada movimento, perceber segundas intenções, ter sempre uma resposta pronta e jamais deixar que alguém passe a perna.

    Talvez seja.

    Mas eu nunca fui muito boa nisso.

    Eu acredito.

    Acredito no que me dizem, no abraço que parece sincero, no “pode contar comigo”, no “eu te amo”, no “vai ficar tudo bem”. Acredito até naquele “vamos marcar”, mesmo sabendo que, muitas vezes, ninguém marca nada.

    Já me disseram algumas vezes que eu sou boba.

    E talvez eu seja mesmo.

    Já confiei em quem não merecia, já defendi gente que provavelmente não faria o mesmo por mim, já dei segundas, terceiras e até quartas chances para pessoas que talvez não merecessem nem a primeira.

    Já ouvi coisas que machucaram e, pouco tempo depois, estava lá tentando entender o lado do outro.

    Boba.

    Já emprestei dinheiro acreditando que devolveriam.

    Já guardei segredo de quem não guardou o meu.

    Já ofereci colo para quem, quando chegou a minha vez de precisar, não estava disponível.

    Boba de novo.

    Mas existe uma coisa que ninguém fala sobre ser boba:

    a gente dorme tranquila.

    Não porque nunca tenha errado.

    Mas porque, quase sempre, tentou agir com o coração limpo.

    Eu não sei viver calculando cada gesto. Não sei oferecer carinho esperando retorno equivalente. Não sei fazer amizade pensando no que aquela pessoa pode me dar.

    Quando gosto, eu gosto.

    Quando amo, amo.

    Quando quero ajudar, ajudo.

    Depois eu vejo no que vai dar.

    Talvez seja justamente aí que more o problema.

    Ou talvez seja aí que esteja a vantagem.

    Porque existe um preço muito alto em ser esperto o tempo inteiro.

    Você começa desconfiando dos outros e, quando percebe, já não acredita em mais ninguém.

    Todo abraço parece interesse.

    Toda gentileza parece estratégia.

    Todo elogio parece falsidade.

    Todo amor parece armadilha.

    Que vida cansativa.

    Eu já vivi coisas suficientes para ter motivos para endurecer.

    Mas não quero.

    Não quero me transformar numa pessoa que olha para todo mundo procurando onde está a mentira.

    Não quero perder a capacidade de me emocionar porque alguém me decepcionou.

    Não quero deixar de acreditar no amor só porque algumas pessoas não souberam amar.

    Não quero parar de confiar porque alguém traiu minha confiança.

    Talvez eu continue quebrando a cara.

    Provavelmente.

    Às vezes vou acreditar em quem não deveria.

    Vou me decepcionar.

    Vou dizer: “Dessa vez eu aprendo.”

    E talvez não aprenda.

    Porque, no fundo, existe uma parte de mim que ainda prefere acreditar que as pessoas podem ser boas.

    Não todas.

    Não o tempo inteiro.

    Mas podem.

    E se isso for ser boba, tudo bem.

    Existe coisa pior.

    Pior é passar pela vida sem acreditar em ninguém.

    Pior é receber carinho e ficar procurando a intenção escondida.

    Pior é amar pela metade para não correr riscos.

    Pior é nunca se entregar por medo de parecer ingênua.

    Já fui chamada de boba muitas vezes.

    Hoje isso já não me ofende tanto.

    Talvez eu seja.

    Mas sou uma boba que ainda acredita em abraço apertado, conversa sincera, amizade verdadeira, pedido de desculpas, reencontros, amor e gente capaz de mudar.

    Uma boba que ainda se emociona.

    Que ainda acredita.

    Que ainda tenta.

    E, depois de tudo que eu já vi nesta vida, continuar acreditando talvez não seja ingenuidade.

    Talvez seja coragem.

    Por isso, entre ser esperta demais e desconfiar do mundo inteiro…

    eu ainda prefiro ser boba.

  • Eu não sei ser metade

    Eu não sei ser metade

    Eu nunca soube gostar pela metade.

    Também nunca soube ir embora pela metade, sofrer pela metade, perdoar pela metade ou fingir que não me importo quando estou claramente me importando mais do que deveria.

    É um defeito cansativo.

    Porque quem sente muito também se machuca muito.

    E eu já tentei ser diferente.

    Já tentei ser aquela pessoa equilibrada, controlada, quase elegante emocionalmente.

    Aquela que recebe uma mensagem fria e responde:

    — Tudo bem.

    Sem completar com mais três parágrafos mentalmente.

    Já tentei parecer indiferente.

    Ficou péssimo.

    Eu não tenho talento para esse tipo de atuação.

    Quando eu gosto, gosto de verdade.

    Quando eu amo, amo com presença.

    Quero saber se chegou bem.

    Quero saber se comeu.

    Quero saber se dormiu.

    Quero saber por que está estranho.

    Quero saber tudo.

    Talvez até coisas que eu nem deveria querer saber.

    Mas fazer o quê?

    Algumas pessoas nasceram para ser misteriosas.

    Eu nasci para perguntar:

    — Tá acontecendo alguma coisa?

    E depois me arrepender da resposta.

    Também não sei ter amizade pela metade.

    Não sei aparecer só quando é conveniente.

    Não sei chamar de amiga alguém que eu procuraria apenas para pedir favor.

    Quando eu considero alguém meu, considero mesmo.

    Defendo.

    Cuido.

    Escuto.

    Brigo também.

    Porque amizade sem uma pequena discussão de vez em quando talvez seja só educação.

    Eu também não sei amar com freio de mão puxado.

    Nunca entendi esse negócio de:

    “Vou gostar só um pouquinho para não sofrer.”

    Como se coração tivesse botão de volume.

    Como se desse para colocar no três.

    O meu aparentemente veio de fábrica no máximo.

    Péssima configuração.

    Já pensei em trocar.

    Perdi a garantia.

    E talvez por isso eu tenha me decepcionado algumas vezes.

    Porque quando a gente entrega inteiro, às vezes espera receber inteiro também.

    E nem sempre acontece.

    Às vezes você oferece presença e recebe silêncio.

    Oferece cuidado e recebe conveniência.

    Oferece verdade e recebe versões.

    Oferece amor e recebe aquela frase maravilhosa:

    — Não estou pronto.

    Curiosamente, algumas pessoas nunca estão prontas para você.

    Mas aparecem completamente preparadas para outra logo depois.

    A vida tem um senso de humor peculiar.

    Só que, apesar de tudo, eu não quero aprender a ser metade.

    Não quero começar a economizar sentimento.

    Não quero distribuir carinho em pequenas parcelas com medo de prejuízo.

    Também não quero virar uma pessoa fria só porque alguém não soube cuidar do que eu ofereci.

    Ser inteira não significa aceitar tudo.

    Essa talvez tenha sido uma das coisas que eu mais demorei a entender.

    Você pode amar muito e ainda assim ir embora.

    Pode sentir saudade e não voltar.

    Pode perdoar e decidir não conviver.

    Pode desejar o bem de alguém e desejar esse bem bem longe da sua casa.

    Maturidade também tem dessas.

    Ser inteira não é permanecer onde você se quebra.

    É justamente saber a hora de recolher os próprios pedaços.

    Hoje eu continuo sentindo muito.

    Continuo acreditando.

    Continuo me entregando.

    Mas comecei a entender que intensidade não precisa significar abandono de si mesma.

    Eu posso ser inteira para alguém sem deixar de ser inteira para mim.

    Essa foi uma descoberta importante.

    Demorou.

    Mas chegou.

    Então não.

    Eu não sei ser metade.

    Nunca soube.

    Talvez nunca aprenda.

    E, pensando bem, nem quero.

    Quero amizades que estejam presentes.

    Conversas que sejam sinceras.

    Abraços que não tenham pressa.

    Amores que não precisem ser decifrados.

    Gente que diga o que sente.

    Gente que fique porque quer ficar.

    E, quando não quiser, que tenha coragem de ir.

    Porque ausência disfarçada de presença é uma das formas mais cruéis de metade.

    Prefiro uma despedida inteira.

    Pode doer.

    Mas pelo menos é verdade.

    Eu já vivi relações pela metade, promessas pela metade, pessoas pela metade.

    E descobri que o problema nunca foi eu sentir demais.

    O problema foi, algumas vezes, oferecer inteiro para quem só tinha migalhas disponíveis.

    Então continuo aqui.

    Inteira.

    Talvez exagerada.

    Talvez intensa.

    Talvez um pouco difícil para quem gosta de coisas mornas.

    Mas inteira.

    Porque, se for para amar, que seja de verdade.

    Se for para ficar, que seja por vontade.

    Se for para partir, que seja com coragem.

    E se for para viver…

    que não seja pela metade.

  • Pertencer nunca foi meu forte

    Pertencer nunca foi meu forte

    Às vezes, a gente se pergunta o que está fazendo aqui. Qual é o fundamento de tudo isso? Existe alguma explicação? E, se existe, quem é capaz de explicar?

    Um dia, vi nas redes sociais uma criança dizendo que queria processar os pais por terem colocado ela no mundo. Achei tão interessante…

    Também queria processar os meus.

    Afinal, qual é o sentido de vir ao mundo e não se sentir amado? Será que isso tem explicação?

    Eu já sonhei em me casar, viajar com meu marido, postar aquelas fotos românticas, trocar beijos e conquistar coisas juntos.

    Tentei uma vez, mas éramos muito imaturos.

    Hoje, meu ex encontrou uma pessoa bacana e construiu uma família. Na verdade, acho que nunca nos amamos de verdade — e fico genuinamente feliz por saber que ele está bem.

    Depois dele, tive outros relacionamentos. Até morei junto.

    E sempre dizia que não ligava para casamento nem para aquelas fotos fofas de casal.

    Que mentirosa eu sou.

    Sempre achei tudo aquilo lindo.

    Vocês sabiam que eu já pedi meu namorado em casamento várias vezes?

    Ele ainda não está preparado.

    Tudo bem, vamos esperar mais um pouco.

    Eu sempre prometo que não vou tocar novamente no assunto…

    Mas acabo tocando.

    Também queria ter um gato.

    Amo plantas e faço vozinha de criança para tudo o que amo. Muita gente acha estranho, mas eu adoro amar.

    Gosto de cuidar, de ficar agarrada, mesmo sem fazer absolutamente nada.

    Talvez seja por isso que eu queira tanto um gatinho: tenho amor acumulado demais procurando um lugar para morar.

    Hoje em dia, demonstrar amor parece quase inadequado.

    Às vezes, acho que sou meio louca.

    Talvez seja mesmo.

    Nunca me encaixei muito bem nesta matéria chamada vida.

    Por vezes, penso que pertenço a outro universo.

    Tenho dificuldade de me aproximar das pessoas.

    Talvez eu seja difícil, diferente ou intensa demais.

    Às vezes, meu jeito de querer bem parece mais uma vontade desesperada de ser aceita — e isso pode sufocar ou incomodar quem não sabe receber.

    Talvez seja por isso que eu ame tanto os gatos e as plantas.

    Acho linda a maneira silenciosa como eles recebem cuidado.

    Também gosto das estrelas, mas amo especialmente a Lua.

    Quando olho para ela, sinto-me mais perto do céu.

    Eu acredito ser uma pessoa da paz, embora admita que sou um pouco encrenqueira.

    Às vezes, gosto de provocar só para deixar os outros irritados.

    Também adoro discordar apenas para contrariar.

    Amo o barulho da chuva.

    Acredita que desligo o ar-condicionado só para conseguir ouvi-la?

    Mas também amo o céu azul, o mar e tudo o que pertence à natureza.

    Então, pensando bem, talvez eu não pertença a outro universo.

    Talvez eu seja daqui, sim.

    Eu só ainda não aprendi a me adaptar aos seres humanos.

  • Lembranças que ainda respiram

    Lembranças que ainda respiram

    Enquanto escrevo esta crônica, mamys está no hospital, muito bem acompanhada e, com as graças de Oxalá, cercada de cuidado.

    E eu estou aqui.

    De roupão, na sala de casa, porque chove e faz frio.

    Fui ao mercado buscar um vinho, fiz um rondelli e, mais uma vez, confirmei uma suspeita antiga: eu sou completamente apaixonada por massas.

    Às vezes acho que fui traficada para o Brasil e que, na verdade, sou italiana.

    Eita.

    Mas não era indígena?

    Talvez eu seja um pouco de cada.

    Enquanto escrevo, escuto os pássaros lá fora. Acho que eles também gostam de chuva.

    Existe uma paz estranha neste pequeno instante.

    Pequeno porque felicidade, paz, tranquilidade… tudo isso parece sempre ter prazo curto. Nunca sabemos quanto tempo um momento desses vai durar. Nem sabemos, na verdade, se algum deles será o último.

    Olho para as minhas plantas.

    As plantas de novo, gente.

    Penso em colocar um filme, mas está tão confortável ficar aqui escrevendo, degustando meu vinho, olhando a casa arrumada, aconchegante, ouvindo a chuva e os pássaros.

    Dentro de mim, porém, acontece uma reunião bastante menos tranquila.

    De um lado, a paz.

    Do outro, ansiedade, raiva, egoísmo, culpa, medo e uma enorme falta de clareza.

    Por enquanto, estou escolhendo a paz.

    Quando eu terminar de escrever, decido qual deles vou alimentar.

    A cortina balança com o vento.

    O vinho está na temperatura boa.

    E a culpa aparece.

    Culpa por não estar no hospital com minha mãe.

    Mesmo sabendo que ela está acompanhada.

    Mesmo sabendo, racionalmente, que ninguém consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

    Ainda assim, ela aparece.

    Culpa não costuma pedir autorização.

    Junto dela vêm as lembranças.

    A ancestralidade parece gritar coisas dentro de mim, enquanto eu tento controlar, distrair, organizar, empurrar algumas memórias para depois.

    Penso em colocar um filme que eu adorava assistir com uma das minhas irmãs.

    Mas tenho medo de chorar.

    E admito: existe muito choro aqui dentro.

    Muito.

    E alguns gritos também.

    Essa crônica talvez seja um pouco melancólica.

    Não foi planejado.

    Ela simplesmente veio.

    Talvez porque, em dias assim, a gente volte para alguns lugares antigos sem precisar sair do sofá.

    Eu volto para a criança caçula.

    Imatura.

    Gente, eu tenho 45 anos, tá?

    Mas talvez eu ainda seja um pouco imatura mesmo.

    Sempre tive um jeito estranho de lidar com as coisas: ou transformo tudo em brincadeira ou fico com raiva.

    Sou meio oito ou oitenta.

    Nunca fui muito boa no quarenta.

    Também nunca me encontrei completamente nas profissões deste mundo.

    Isso eu escuto muito.

    Tenho uma dificuldade imensa em terminar algumas coisas que começo. Sou pragmática em muitos aspectos, mas, ao mesmo tempo, não gosto de receber ordens e tenho uma relação bastante complicada com regras.

    Talvez por isso minha trajetória pareça tão cheia de começos.

    Mas, quando penso na minha infância, lembro de outra versão de mim.

    Eu era tão inteligente.

    Não estou me achando, não.

    Eu era mesmo.

    Lembro de uma escola onde existia uma espécie de convocação das melhores alunas.

    Eu era sempre a primeira.

    Eu já sabia as respostas.

    Adorava Ciências e História.

    Lembro da minha avó paterna, que me criou, me levando para a escola.

    Consigo lembrar do caminho.

    Dos lugares.

    Da sensação.

    E, às vezes, me pergunto:

    Em que momento eu me perdi daquela menina?

    Meu sonho quando criança era ser médica.

    Ou estudar em um colégio interno.

    Hoje penso: colégio interno?

    Que ideia era essa?

    Eu nem sabia direito como funcionava.

    Também adorava testar receitas.

    Fazia bolinhos de batata com farinha de trigo com tia Maria, em Piedade.

    Engraçado perceber que algumas coisas começam muito antes de a gente lhes dar um nome.

    Talvez meu amor pela cozinha estivesse ali.

    Eu também lia muito.

    Muito mesmo.

    Tinha um livro de que gostava especialmente: A Ilha Perdida.

    Eu lia e relia.

    Gostava de gibis também.

    Talvez essa mania de viajar para lugares inventados tenha começado nos livros.

    Quando criança, eu planejava viagens que provavelmente nunca aconteceriam.

    Guardava frutas embaixo da cama.

    Não me perguntem por quê.

    Acho que era influência de alguma história que eu tinha lido.

    Também lembro das minhas irmãs.

    Eu achava as duas lindas.

    Talvez tivesse até um pouquinho de inveja da beleza delas.

    Uma era lourinha.

    A outra parecia a Branca de Neve: pele clara e cabelos pretos.

    Eram lindas.

    Elas continuam vivas, obviamente.

    Quando digo “eram”, quero dizer que aquele olhar era o olhar da menina que eu fui.

    Hoje eu as vejo de outras formas.

    A infância muda as pessoas dentro da nossa memória.

    E lembro da minha mãe.

    Ela era linda.

    Ainda é.

    Mas, quando eu era criança, eu era completamente apaixonada por ela.

    Minhas irmãs eram muito ligadas ao meu pai.

    Eu era da minha mãe.

    Meu pai também era bonito, mas a minha mãe…

    Nossa.

    Sem palavras.

    Existe uma foto dela que mora na minha cabeça.

    Ela está encostada em um Fusca, ao lado de uma amiga.

    Eu amo aquela foto.

    Talvez porque nela esteja congelada uma versão dela que nunca envelheceu dentro de mim.

    Minha mãe trabalhava muito.

    E nós, as três filhas, fomos criadas pela nossa avó paterna.

    Eu sentia falta dela.

    Muita.

    Talvez algumas saudades comecem antes mesmo de a gente saber que aquilo se chama saudade.

    Eu nunca fui uma criança fácil.

    Nem uma adulta fácil, pelo visto.

    Mas sempre fui louca pela minha mãe.

    E hoje, enquanto ela está no hospital e eu estou aqui, de roupão, com meu vinho, minha massa, minhas plantas, a chuva e os pássaros, percebo que talvez eu esteja escrevendo essas crônicas justamente para isso.

    Para tentar lembrar.

    Lembrar da escola.

    Do caminho com minha avó.

    Dos livros.

    Das receitas.

    Das minhas irmãs.

    Das viagens inventadas.

    Das frutas embaixo da cama.

    Da foto da minha mãe encostada no Fusca.

    Dos momentos bons.

    E também dos difíceis.

    Porque foram momentos vivos.

    E talvez seja isso que eu esteja tentando resgatar cada vez que escrevo:

    não uma infância perfeita.

    Não uma família perfeita.

    Nem uma versão perfeita de mim.

    Só os pedaços que sobraram.

    As pequenas cenas que o tempo não conseguiu levar.

    Lembranças que, de algum jeito, ainda respiram dentro de mim.

    E que eu quero levar comigo.

    Por enquanto, a chuva continua.

    Os pássaros continuam cantando.

    Mamys continua sendo cuidada.

    Meu vinho continua aqui.

    E eu também.

    Neste pequeno instante, pelo menos, escolhi alimentar a paz.