Eu nunca soube gostar pela metade.
Também nunca soube ir embora pela metade, sofrer pela metade, perdoar pela metade ou fingir que não me importo quando estou claramente me importando mais do que deveria.
É um defeito cansativo.
Porque quem sente muito também se machuca muito.
E eu já tentei ser diferente.
Já tentei ser aquela pessoa equilibrada, controlada, quase elegante emocionalmente.
Aquela que recebe uma mensagem fria e responde:
— Tudo bem.
Sem completar com mais três parágrafos mentalmente.
Já tentei parecer indiferente.
Ficou péssimo.
Eu não tenho talento para esse tipo de atuação.
Quando eu gosto, gosto de verdade.
Quando eu amo, amo com presença.
Quero saber se chegou bem.
Quero saber se comeu.
Quero saber se dormiu.
Quero saber por que está estranho.
Quero saber tudo.
Talvez até coisas que eu nem deveria querer saber.
Mas fazer o quê?
Algumas pessoas nasceram para ser misteriosas.
Eu nasci para perguntar:
— Tá acontecendo alguma coisa?
E depois me arrepender da resposta.
Também não sei ter amizade pela metade.
Não sei aparecer só quando é conveniente.
Não sei chamar de amiga alguém que eu procuraria apenas para pedir favor.
Quando eu considero alguém meu, considero mesmo.
Defendo.
Cuido.
Escuto.
Brigo também.
Porque amizade sem uma pequena discussão de vez em quando talvez seja só educação.
Eu também não sei amar com freio de mão puxado.
Nunca entendi esse negócio de:
“Vou gostar só um pouquinho para não sofrer.”
Como se coração tivesse botão de volume.
Como se desse para colocar no três.
O meu aparentemente veio de fábrica no máximo.
Péssima configuração.
Já pensei em trocar.
Perdi a garantia.
E talvez por isso eu tenha me decepcionado algumas vezes.
Porque quando a gente entrega inteiro, às vezes espera receber inteiro também.
E nem sempre acontece.
Às vezes você oferece presença e recebe silêncio.
Oferece cuidado e recebe conveniência.
Oferece verdade e recebe versões.
Oferece amor e recebe aquela frase maravilhosa:
— Não estou pronto.
Curiosamente, algumas pessoas nunca estão prontas para você.
Mas aparecem completamente preparadas para outra logo depois.
A vida tem um senso de humor peculiar.
Só que, apesar de tudo, eu não quero aprender a ser metade.
Não quero começar a economizar sentimento.
Não quero distribuir carinho em pequenas parcelas com medo de prejuízo.
Também não quero virar uma pessoa fria só porque alguém não soube cuidar do que eu ofereci.
Ser inteira não significa aceitar tudo.
Essa talvez tenha sido uma das coisas que eu mais demorei a entender.
Você pode amar muito e ainda assim ir embora.
Pode sentir saudade e não voltar.
Pode perdoar e decidir não conviver.
Pode desejar o bem de alguém e desejar esse bem bem longe da sua casa.
Maturidade também tem dessas.
Ser inteira não é permanecer onde você se quebra.
É justamente saber a hora de recolher os próprios pedaços.
Hoje eu continuo sentindo muito.
Continuo acreditando.
Continuo me entregando.
Mas comecei a entender que intensidade não precisa significar abandono de si mesma.
Eu posso ser inteira para alguém sem deixar de ser inteira para mim.
Essa foi uma descoberta importante.
Demorou.
Mas chegou.
Então não.
Eu não sei ser metade.
Nunca soube.
Talvez nunca aprenda.
E, pensando bem, nem quero.
Quero amizades que estejam presentes.
Conversas que sejam sinceras.
Abraços que não tenham pressa.
Amores que não precisem ser decifrados.
Gente que diga o que sente.
Gente que fique porque quer ficar.
E, quando não quiser, que tenha coragem de ir.
Porque ausência disfarçada de presença é uma das formas mais cruéis de metade.
Prefiro uma despedida inteira.
Pode doer.
Mas pelo menos é verdade.
Eu já vivi relações pela metade, promessas pela metade, pessoas pela metade.
E descobri que o problema nunca foi eu sentir demais.
O problema foi, algumas vezes, oferecer inteiro para quem só tinha migalhas disponíveis.
Então continuo aqui.
Inteira.
Talvez exagerada.
Talvez intensa.
Talvez um pouco difícil para quem gosta de coisas mornas.
Mas inteira.
Porque, se for para amar, que seja de verdade.
Se for para ficar, que seja por vontade.
Se for para partir, que seja com coragem.
E se for para viver…
que não seja pela metade.

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