Por Tatiana Longuinho
Hoje, enquanto acompanhava minha mãe no hospital, minha médica me indicou um livro.
O título, confesso, não é daqueles que passam despercebidos:
“A morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Claudia Quintana Arantes.
Talvez, em outro momento da minha vida, eu olhasse para esse título com certo desconforto. Afinal, falar sobre a morte nunca foi exatamente um assunto que escolhemos para uma conversa tranquila de fim de tarde.
Mas existem momentos em que algumas palavras chegam até nós de maneira diferente.
E hoje elas chegaram.
Ana Claudia Quintana Arantes é médica geriatra e uma das principais referências brasileiras em cuidados paliativos. A obra nasceu a partir de uma palestra realizada pela autora em 2012 e propõe justamente uma mudança de perspectiva: em vez de olhar para a morte apenas como algo assustador, ela nos convida a observar como estamos usando o tempo que existe antes dela.
E talvez aí esteja a grande beleza do livro.
Um livro chamado “morte” que fala, sobretudo, de vida
À primeira vista, podemos imaginar uma leitura triste ou pesada.
Mas a proposta é outra.
A morte aparece como uma espécie de espelho. Quando lembramos que nossa existência não é infinita, algumas perguntas que costumamos adiar começam a ganhar importância.
Estamos vivendo da maneira que gostaríamos?
Estamos dizendo às pessoas que amamos que elas são importantes?
Quanto tempo gastamos com coisas que, no fundo, não significam absolutamente nada?
Quantos abraços adiamos?
Quantas conversas ficam para depois?
Segundo a proposta apresentada pela autora, talvez o grande medo não devesse ser simplesmente morrer, mas chegar ao fim da vida percebendo que não vivemos de acordo com aquilo que realmente importava para nós.
E isso muda completamente a conversa.
Também precisamos aprender a perder
Existe outro ponto muito interessante na obra.
Passamos boa parte da vida sendo ensinados a ganhar.
Ganhar dinheiro.
Ganhar reconhecimento.
Conquistar uma profissão.
Conquistar uma casa.
Construir relações.
Realizar sonhos.
Somos preparados para conquistar.
Mas quase ninguém nos ensina a perder.
E, inevitavelmente, ao longo da vida perdemos alguma coisa: pessoas, planos, juventude, certezas, relacionamentos, possibilidades e até versões de nós mesmos que um dia existiram.
A reflexão proposta no livro é que aprender a lidar com as perdas também faz parte de uma vida inteira. A própria apresentação oficial da obra resume essa ideia ao relacionar a capacidade de perder à possibilidade de ter vivido plenamente aquilo que um dia tivemos.
Achei isso particularmente forte.
Porque talvez aceitar que algo é precioso também signifique aceitar que não podemos possuí-lo para sempre.
Cuidados paliativos não significam desistência
O livro também aproxima o leitor de um tema ainda cercado de muito desconhecimento: os cuidados paliativos.
Existe a impressão de que eles começam quando “não há mais nada a fazer”.
Mas a filosofia dos cuidados paliativos é justamente lembrar que sempre existe alguém para cuidar, mesmo quando determinadas possibilidades de cura deixam de existir.
É possível aliviar a dor.
Diminuir o sofrimento.
Ouvir.
Respeitar escolhas.
Proporcionar conforto.
Preservar dignidade.
Permitir que uma pessoa continue sendo muito mais do que um diagnóstico ou um número de prontuário.
A trajetória profissional de Ana Claudia é dedicada justamente a essa maneira mais humana de acompanhar pessoas que convivem com doenças graves e suas famílias.
E talvez nós precisemos falar mais sobre isso.
O presente fica diferente quando percebemos que ele não é infinito
Existe uma crueldade no medo: às vezes ele nos faz sofrer antecipadamente por coisas que ainda nem aconteceram.
Começamos a morar no amanhã.
Imaginamos cenários.
Criamos diálogos.
Tentamos descobrir respostas para perguntas que talvez ninguém consiga responder.
Enquanto isso, o hoje continua acontecendo.
Talvez uma das reflexões mais importantes despertadas por esse livro seja exatamente esta:
a pessoa que amamos está aqui agora.
Existe um café que ainda pode ser tomado.
Uma história que ainda pode ser contada.
Uma reclamação que daqui a alguns anos talvez até faça falta.
Uma mão que pode ser segurada.
Uma fotografia que ainda pode ser feita.
Um “eu te amo” que ainda pode ser dito.
Não se trata de fingir que a doença, a perda ou o medo não existem.
Trata-se de não permitir que o medo do amanhã roube completamente aquilo que ainda temos hoje.
E então o título começa a fazer sentido
“A morte é um dia que vale a pena viver” pode parecer uma frase contraditória.
Depois entendemos que a provocação está justamente aí.
Até o último dia, ainda existe uma pessoa.
Ainda existem desejos.
Ainda existe dignidade.
Ainda existe afeto.
Ainda existe vida.
A morte não precisa transformar todos os dias anteriores a ela em uma interminável sala de espera.
A obra convida o leitor a pensar sobre finitude justamente para valorizar aquilo que acontece antes dela. A editora descreve o livro como uma reflexão sobre aproveitar o tempo e permitir que as pessoas possam viver bem até sua partida.
Vale a pena ler?
Talvez não seja o tipo de livro que escolhemos apenas para passar o tempo.
É uma leitura que chega fazendo perguntas.
Algumas provavelmente desconfortáveis.
Outras necessárias.
E talvez seja justamente por isso que tantas pessoas se identifiquem com ele.
Porque, apesar do título, este não parece ser um livro sobre como morrer.
É um livro sobre como não esquecer de viver.
Hoje ele chegou até mim dentro de um hospital.
E talvez livros também sejam assim.
Existem aqueles que escolhemos.
E existem aqueles que parecem encontrar a gente exatamente no momento em que precisávamos deles.
Eu já comprei o meu.
Agora vou descobrir o que existe depois da primeira página.
