Eu ainda prefiro ser boba
Tem gente que acha que ser esperto é não confiar em ninguém.
É desconfiar de tudo, prever cada movimento, perceber segundas intenções, ter sempre uma resposta pronta e jamais deixar que alguém passe a perna.
Talvez seja.
Mas eu nunca fui muito boa nisso.
Eu acredito.
Acredito no que me dizem, no abraço que parece sincero, no “pode contar comigo”, no “eu te amo”, no “vai ficar tudo bem”. Acredito até naquele “vamos marcar”, mesmo sabendo que, muitas vezes, ninguém marca nada.
Já me disseram algumas vezes que eu sou boba.
E talvez eu seja mesmo.
Já confiei em quem não merecia, já defendi gente que provavelmente não faria o mesmo por mim, já dei segundas, terceiras e até quartas chances para pessoas que talvez não merecessem nem a primeira.
Já ouvi coisas que machucaram e, pouco tempo depois, estava lá tentando entender o lado do outro.
Boba.
Já emprestei dinheiro acreditando que devolveriam.
Já guardei segredo de quem não guardou o meu.
Já ofereci colo para quem, quando chegou a minha vez de precisar, não estava disponível.
Boba de novo.
Mas existe uma coisa que ninguém fala sobre ser boba:
a gente dorme tranquila.
Não porque nunca tenha errado.
Mas porque, quase sempre, tentou agir com o coração limpo.
Eu não sei viver calculando cada gesto. Não sei oferecer carinho esperando retorno equivalente. Não sei fazer amizade pensando no que aquela pessoa pode me dar.
Quando gosto, eu gosto.
Quando amo, amo.
Quando quero ajudar, ajudo.
Depois eu vejo no que vai dar.
Talvez seja justamente aí que more o problema.
Ou talvez seja aí que esteja a vantagem.
Porque existe um preço muito alto em ser esperto o tempo inteiro.
Você começa desconfiando dos outros e, quando percebe, já não acredita em mais ninguém.
Todo abraço parece interesse.
Toda gentileza parece estratégia.
Todo elogio parece falsidade.
Todo amor parece armadilha.
Que vida cansativa.
Eu já vivi coisas suficientes para ter motivos para endurecer.
Mas não quero.
Não quero me transformar numa pessoa que olha para todo mundo procurando onde está a mentira.
Não quero perder a capacidade de me emocionar porque alguém me decepcionou.
Não quero deixar de acreditar no amor só porque algumas pessoas não souberam amar.
Não quero parar de confiar porque alguém traiu minha confiança.
Talvez eu continue quebrando a cara.
Provavelmente.
Às vezes vou acreditar em quem não deveria.
Vou me decepcionar.
Vou dizer: “Dessa vez eu aprendo.”
E talvez não aprenda.
Porque, no fundo, existe uma parte de mim que ainda prefere acreditar que as pessoas podem ser boas.
Não todas.
Não o tempo inteiro.
Mas podem.
E se isso for ser boba, tudo bem.
Existe coisa pior.
Pior é passar pela vida sem acreditar em ninguém.
Pior é receber carinho e ficar procurando a intenção escondida.
Pior é amar pela metade para não correr riscos.
Pior é nunca se entregar por medo de parecer ingênua.
Já fui chamada de boba muitas vezes.
Hoje isso já não me ofende tanto.
Talvez eu seja.
Mas sou uma boba que ainda acredita em abraço apertado, conversa sincera, amizade verdadeira, pedido de desculpas, reencontros, amor e gente capaz de mudar.
Uma boba que ainda se emociona.
Que ainda acredita.
Que ainda tenta.
E, depois de tudo que eu já vi nesta vida, continuar acreditando talvez não seja ingenuidade.
Talvez seja coragem.
Por isso, entre ser esperta demais e desconfiar do mundo inteiro…
eu ainda prefiro ser boba.

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