Eu nunca soube conversar com o tempo.
Passei boa parte da vida reclamando que ele demorava. Queria que as coisas acontecessem logo, que os dias difíceis terminassem, que os sonhos chegassem, que as respostas aparecessem.
Agora eu queria justamente o contrário.
Queria pedir ao tempo que andasse devagar.
Que não tivesse tanta pressa em mudar os rostos que amo, em transformar os corpos, em levar embora aquilo que um dia pensei que estaria aqui para sempre.
Talvez a gente só entenda o tempo quando percebe que não manda nele.
Não adianta implorar para ontem voltar. Não adianta segurar o amanhã do lado de fora. E, por mais que doa admitir, também não existe força capaz de fazer o presente permanecer exatamente onde está.
É isso que mais me assusta.
Minha mãe envelheceu.
Eu também.
E em algum momento, sem que eu percebesse, aquela mulher que parecia invencível passou a precisar de cuidado. A mulher que tantas vezes foi meu abrigo agora me faz desejar ter poderes que não tenho.
Eu queria protegê-la do tempo.
Da doença.
Da dor.
De tudo aquilo que eu não consigo controlar.
Mas não posso.
E talvez amadurecer também seja descobrir essa parte cruel da vida: amar alguém profundamente não nos dá o poder de impedir que alguma coisa aconteça com essa pessoa.
Então eu faço o que consigo.
Fico perto.
Guardo fotografias.
Escuto a voz com mais atenção.
Reparo nas mãos.
Nos olhos.
Nos pequenos gestos que durante tantos anos pareceram tão comuns que eu jamais imaginei que um dia teria medo de perdê-los.
Talvez seja isso que o tempo faça conosco.
Primeiro ele nos ensina a querer o futuro.
Depois nos ensina a sentir saudade do passado.
E, quando finalmente entendemos alguma coisa, percebemos que tudo o que realmente temos é este instante.
Hoje.
Agora.
Por isso minha oração mudou.
Eu não peço mais ao tempo que pare.
Sei que ele não vai parar.
Também não peço que volte, porque existem caminhos que só podem ser percorridos uma vez.
Peço apenas que seja gentil.
Que passe devagar quando eu estiver abraçando minha mãe.
Que me deixe perceber as coisas pequenas.
Que não permita que a pressa me roube aquilo que ainda está aqui.
E, quando eu não puder mudar o que estiver por vir, que ele me ensine a aceitar sem transformar aceitação em desistência.
Porque aceitar não significa amar menos.
Às vezes significa justamente o contrário.
Significa amar tanto que a gente aprende a permanecer, mesmo quando não existe nada para consertar.
Talvez essa seja a minha oração ao tempo:
não me poupe de viver.
Mas, por favor,
me ensine a estar presente enquanto ainda é tempo.

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