Passei muito tempo achando que precisava entender tudo o que eu sentia.
Se eu amava, então tinha que amar o tempo inteiro.
Se estava feliz, não podia sentir tristeza.
Se sentia saudade, deveria querer de volta.
Se estava com raiva, talvez já não amasse mais.
Como se sentimento obedecesse a alguma lógica.
Mas não obedece.
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar: dentro da gente podem existir duas verdades completamente contrárias — e nenhuma delas precisa ser mentira.
Eu posso amar alguém e querer distância.
Posso sentir saudade e não querer voltar.
Posso perdoar e ainda me lembrar da dor.
Posso estar rodeada de pessoas e sentir uma solidão imensa.
Posso rir num dia em que alguma coisa dentro de mim está doendo.
E talvez eu nunca consiga explicar direito.
Tenho uma mania quase desesperada de procurar palavras para aquilo que sinto. Acho que é por isso que escrevo tanto. Falar exige que eu saiba exatamente o que quero dizer. Escrever me permite descobrir enquanto digo.
Às vezes começo uma frase acreditando que estou com raiva e termino percebendo que era tristeza.
Em outras, penso que é saudade e descubro que era apenas lembrança.
E há dias em que escrevo páginas inteiras e continuo sem saber.
Talvez eu tenha passado tempo demais tentando transformar sentimentos em coisas organizadas, com nome, motivo e conclusão.
Mas gente não é assim.
Somos feitos também daquilo que não combina.
Do amor misturado com raiva.
Da coragem acompanhada do medo.
Da vontade de ficar e, ao mesmo tempo, fugir.
Das certezas que duram cinco minutos e das dúvidas que atravessam anos.
E comecei a pensar que talvez eu não precise compreender tudo.
Talvez algumas coisas dentro de mim possam simplesmente existir.
Sem explicação.
Sem legenda.
Sem a obrigação de fazer sentido para os outros.
Nem para mim.
No fundo, é justamente por isso que continuo escrevendo.
Não porque tenha encontrado as respostas.
Mas porque, entre uma palavra e outra, às vezes encontro uma pequena parte de mim.
E quando não encontro, tudo bem também.
Amanhã eu escrevo de novo.

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