Enquanto escrevo esta crônica, mamys está no hospital, muito bem acompanhada e, com as graças de Oxalá, cercada de cuidado.
E eu estou aqui.
De roupão, na sala de casa, porque chove e faz frio.
Fui ao mercado buscar um vinho, fiz um rondelli e, mais uma vez, confirmei uma suspeita antiga: eu sou completamente apaixonada por massas.
Às vezes acho que fui traficada para o Brasil e que, na verdade, sou italiana.
Eita.
Mas não era indígena?
Talvez eu seja um pouco de cada.
Enquanto escrevo, escuto os pássaros lá fora. Acho que eles também gostam de chuva.
Existe uma paz estranha neste pequeno instante.
Pequeno porque felicidade, paz, tranquilidade… tudo isso parece sempre ter prazo curto. Nunca sabemos quanto tempo um momento desses vai durar. Nem sabemos, na verdade, se algum deles será o último.
Olho para as minhas plantas.
As plantas de novo, gente.
Penso em colocar um filme, mas está tão confortável ficar aqui escrevendo, degustando meu vinho, olhando a casa arrumada, aconchegante, ouvindo a chuva e os pássaros.
Dentro de mim, porém, acontece uma reunião bastante menos tranquila.
De um lado, a paz.
Do outro, ansiedade, raiva, egoísmo, culpa, medo e uma enorme falta de clareza.
Por enquanto, estou escolhendo a paz.
Quando eu terminar de escrever, decido qual deles vou alimentar.
A cortina balança com o vento.
O vinho está na temperatura boa.
E a culpa aparece.
Culpa por não estar no hospital com minha mãe.
Mesmo sabendo que ela está acompanhada.
Mesmo sabendo, racionalmente, que ninguém consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
Ainda assim, ela aparece.
Culpa não costuma pedir autorização.
Junto dela vêm as lembranças.
A ancestralidade parece gritar coisas dentro de mim, enquanto eu tento controlar, distrair, organizar, empurrar algumas memórias para depois.
Penso em colocar um filme que eu adorava assistir com uma das minhas irmãs.
Mas tenho medo de chorar.
E admito: existe muito choro aqui dentro.
Muito.
E alguns gritos também.
Essa crônica talvez seja um pouco melancólica.
Não foi planejado.
Ela simplesmente veio.
Talvez porque, em dias assim, a gente volte para alguns lugares antigos sem precisar sair do sofá.
Eu volto para a criança caçula.
Imatura.
Gente, eu tenho 45 anos, tá?
Mas talvez eu ainda seja um pouco imatura mesmo.
Sempre tive um jeito estranho de lidar com as coisas: ou transformo tudo em brincadeira ou fico com raiva.
Sou meio oito ou oitenta.
Nunca fui muito boa no quarenta.
Também nunca me encontrei completamente nas profissões deste mundo.
Isso eu escuto muito.
Tenho uma dificuldade imensa em terminar algumas coisas que começo. Sou pragmática em muitos aspectos, mas, ao mesmo tempo, não gosto de receber ordens e tenho uma relação bastante complicada com regras.
Talvez por isso minha trajetória pareça tão cheia de começos.
Mas, quando penso na minha infância, lembro de outra versão de mim.
Eu era tão inteligente.
Não estou me achando, não.
Eu era mesmo.
Lembro de uma escola onde existia uma espécie de convocação das melhores alunas.
Eu era sempre a primeira.
Eu já sabia as respostas.
Adorava Ciências e História.
Lembro da minha avó paterna, que me criou, me levando para a escola.
Consigo lembrar do caminho.
Dos lugares.
Da sensação.
E, às vezes, me pergunto:
Em que momento eu me perdi daquela menina?
Meu sonho quando criança era ser médica.
Ou estudar em um colégio interno.
Hoje penso: colégio interno?
Que ideia era essa?
Eu nem sabia direito como funcionava.
Também adorava testar receitas.
Fazia bolinhos de batata com farinha de trigo com tia Maria, em Piedade.
Engraçado perceber que algumas coisas começam muito antes de a gente lhes dar um nome.
Talvez meu amor pela cozinha estivesse ali.
Eu também lia muito.
Muito mesmo.
Tinha um livro de que gostava especialmente: A Ilha Perdida.
Eu lia e relia.
Gostava de gibis também.
Talvez essa mania de viajar para lugares inventados tenha começado nos livros.
Quando criança, eu planejava viagens que provavelmente nunca aconteceriam.
Guardava frutas embaixo da cama.
Não me perguntem por quê.
Acho que era influência de alguma história que eu tinha lido.
Também lembro das minhas irmãs.
Eu achava as duas lindas.
Talvez tivesse até um pouquinho de inveja da beleza delas.
Uma era lourinha.
A outra parecia a Branca de Neve: pele clara e cabelos pretos.
Eram lindas.
Elas continuam vivas, obviamente.
Quando digo “eram”, quero dizer que aquele olhar era o olhar da menina que eu fui.
Hoje eu as vejo de outras formas.
A infância muda as pessoas dentro da nossa memória.
E lembro da minha mãe.
Ela era linda.
Ainda é.
Mas, quando eu era criança, eu era completamente apaixonada por ela.
Minhas irmãs eram muito ligadas ao meu pai.
Eu era da minha mãe.
Meu pai também era bonito, mas a minha mãe…
Nossa.
Sem palavras.
Existe uma foto dela que mora na minha cabeça.
Ela está encostada em um Fusca, ao lado de uma amiga.
Eu amo aquela foto.
Talvez porque nela esteja congelada uma versão dela que nunca envelheceu dentro de mim.
Minha mãe trabalhava muito.
E nós, as três filhas, fomos criadas pela nossa avó paterna.
Eu sentia falta dela.
Muita.
Talvez algumas saudades comecem antes mesmo de a gente saber que aquilo se chama saudade.
Eu nunca fui uma criança fácil.
Nem uma adulta fácil, pelo visto.
Mas sempre fui louca pela minha mãe.
E hoje, enquanto ela está no hospital e eu estou aqui, de roupão, com meu vinho, minha massa, minhas plantas, a chuva e os pássaros, percebo que talvez eu esteja escrevendo essas crônicas justamente para isso.
Para tentar lembrar.
Lembrar da escola.
Do caminho com minha avó.
Dos livros.
Das receitas.
Das minhas irmãs.
Das viagens inventadas.
Das frutas embaixo da cama.
Da foto da minha mãe encostada no Fusca.
Dos momentos bons.
E também dos difíceis.
Porque foram momentos vivos.
E talvez seja isso que eu esteja tentando resgatar cada vez que escrevo:
não uma infância perfeita.
Não uma família perfeita.
Nem uma versão perfeita de mim.
Só os pedaços que sobraram.
As pequenas cenas que o tempo não conseguiu levar.
Lembranças que, de algum jeito, ainda respiram dentro de mim.
E que eu quero levar comigo.
Por enquanto, a chuva continua.
Os pássaros continuam cantando.
Mamys continua sendo cuidada.
Meu vinho continua aqui.
E eu também.
Neste pequeno instante, pelo menos, escolhi alimentar a paz.

Deixe um comentário